segunda-feira, 5 de junho de 2017

Diário de um Psiquiatra: Alter Ego

Tantos anos se passaram quanto quando não se percebe ver passarem, o suficiente para ter passado despercebido mudanças em sua visão periférica de sua própria silhueta... não notando o próprio corpo envelhecido, corpo este destituído de ofício. Abandonara a profissão de psiquiatra e os estudos de terapia comportamental, escrevera um livro sobre técnicas de mimetismo social, discorrendo um assunto efetivo em seu campo de estudos, inovando com o conceito onde o paciente deve seguir um roteiro, agir pela apropriação da similitude em seu meio social, assunto que ganhou prestígio pois tinha como resultado interior para quem se recupera de um incidente emocional que ela haja pelo bem social do seu interior para o universo exterior ao qual ela frequenta, tese esta que derrubaria a necessidade de medicamentos e intervenções no universo da vida do humano atendido pela técnica, preservando seu respectivo capital empírico pessoal. Assunto este fez o nome e com isso, lhe deu acessos, mas não se importou com isso, não era ele refém de sentimentalismos familiares, tão pouco tinha para quem deixar legado e a vida consistia em continuar o caminho de experiências, de aprender com a dor, de crescer no seu interior, atingir uma iluminação como último ato da peça teatral que é viver.
Acordo tarde, como é frequente... ter por perto água se tornou mecanismo de sobrevivência, me agrada os bares próximo desses convites de palestrar e saber que acordar tarde não é problema, não vejo necessidades de resistir, gosto do meu alter ego. Ainda bem vestido, apesar de corpo e alma amarrotadas, noto dentro do meu paletó um papel amassado, mas não deve ser meu, o conteúdo tem afeto. “Não acredito que estes revolucionários acreditaram em você, mas me conforta é entender que eu própria acredito quando diz gostar de mim...”

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Diário de um Psiquiatra: Rehab

“Luzes se misturam... uma escuridão que se dissolve entre luzes que invariavelmente se misturam... como um borrão...”

(...) Uma longa e intensa respiração, como se fosse a última, me domina e me traz à vida. Uma pequena morte domina meu paladar com um gosto incontestavelmente sombrio. Sinto arder os lábios e levo mecanicamente aos mãos a eles, em uma visão nublada vejo meus punhos marcados de sangue, sinais de luta? Deixo a falta de força nos braços falar por mim e os atiro inertes sobre os travesseiros do que parece ser o sofá de meu escritório... como vim parar aqui? Isso não precisa importar agora. Fecho os olhos na esperança de que minha visão se estabilize, o peso característico de meus pensamentos evidenciam experimentação de bebidas, drogas e muito cigarro, nada fora do habitual, do vigente habitual. Percebo que de olhos fechados o mundo gira desconfortavelmente e os abro como se pudesse me perder no limpo para sempre se os mantivesse fechado por mais um segundo, vislumbro uma claridade quase mortal e meu corpo reage como que ele todo quisesse se mover para dentro a procura de uma escuridão qualquer, instintivamente meus braços se movem esbarrando em papeis, agarro os e fecho os olhos respirando como quem se recupera de um choque, lembro de técnicas de meditação, limpo meus pensamentos e observo meu respirar até que me acalmo. Com cautela, abro os olhos, semicerrados, me adaptando à luz, mantendo-me assim pelo tempo que me pareceu horas percebo que ainda prendia entre meus dedos papeis e os levo à face, em meio à uma perspectiva ainda turva noto que se trata de minhas anotações e quando vejo de qual paciente se trata, noto que era justamente o último de minha carreira. Há anos não nos falamos, desde que indiquei alta medicamentosa acompanhada por psicólogos. Tomado por pensamentos cedo novamente à resistência de manter os braços suspensos e novamente inerte, fecho os olhos, me vendo como era, da penumbra desse escritório, sentado na onipotência de minha poltrona, alheio, protegido por um diploma, imune aos devaneios de meus pacientes... não eram realidades tão distintas a minha e a de meus pacientes?




segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Diário de um Psiquiatra: Piloto. / Diário de um esquizofrênico: Transcendência do ser.

Diário de um Psiquiatra: Piloto.
Era um crepúsculo clichê, belo por obrigação, o tempo estava agradável para a maioria das pessoas. Talvez um dia feliz para o meu cliente, que receberá alta de classe excepcional hoje.
Diferente do meu consultório, que agora, sentado aguardando meu paciente em uma sombra de um comércio popular, penso no quão excêntrico poderia ser meu consultório pra alguns, que não segue nenhuma ortodoxia moderna, reflito um pouco sobre o assunto mas sou interrompido por quem já era hora de chegar, detesto esses ambientes felizes ilusórios, tudo não passa de cenários aleatórios acidentais, o reverenciado é a matemática que mantem o equilíbrio de tudo, e admiram apenas um cenário.
Quando noto, já é hora de cumprimentar, não me movimento de forma sistematizada mais, não preciso agir como estou no consultório, lembro de uma frase clichê que devo ter visto em algum blog, qual é mesmo? “O primeiro dia do resto da minha vida”, é o que ele precisa pensar, limpo minha mente de qualquer pensamento que o rotule como paciente em estado crônico de seu transtorno, tendo-o como o meu melhor candidato a merecer o tratamento de terapia com psicólogo assistida por pela psiquiatria, sem a necessidade de prescrição de medicamentos. O cumprimento, com meu sorriso sintetizado de quem dará boas notícias.
Como de hábito, ao vê-lo, movimento meus óculos, como quem se prepara mentalmente para o inesperado. O observo expressar toda a sua felicidade, não me surpreendo, minha empatia, apesar de branda, mas é o suficiente pra entender o quão cômodo é, ter que se livrar de alguns fardos constrangedores e trabalhosos. Me levanto, e entrego um envelope com as instruções, ele o observou como quem não entende o nome atribuído ao documento, ele não sabe, mas intimamente o batizei como Télio Sends. Que não significa nada, gosto do som do nome, e dou a ele esse pseudônimo, agora apto à novidades científicas.

Diário de um esquizofrênico: Transcendência do ser.
Quando acordei, lembrei-me de um pensamento que me tirou o sono por algumas horas nessa noite, dizem que os primeiros minutos do seu dia definem o restante, pensar sobre um único pensamento por tanto tempo me preocupa, lembro-me bem do que meu médico disse: “O problema é o ciclo permanente de um pensar demais, e pensar de mais não é um problema, pensar demais é bom, é agregador, soma-te o tempo todo, diferente disso, onde o pensar demais envolve pensamentos que já foram pensados, e que já deixaram de agregar, crie mecanismos de bloquear o pensamento, pois há estudos neurocientíficos, aos quais defendo no meu ofício, que indicam um comportamento manual de controlar quais pensamentos quer ter, se algum pensamento te incomoda, lembre-se de que você reagiu em pensamentos de forma negativa para aquele pensamento e procure trocá-lo de propósito por outro, bom, me distraí com a ideia e acabei sugerindo conselhos de amizade, até. Mas acredite, como paciente que quando se opta por não pensar em algo de acordo com o que te disse, seu cérebro cria um padrão onde será cada vez mais fácil se livrar daquele pensamento”. E pensar demais neste momento é de acordo com uma irregularidade comportamental dentro do que compreendi, e acredito em suas palavras e as tenho como dogmas. Já se finda o brilho do dia, e meus pensamentos são os mesmos aos quais fizeram parte dos primeiros momentos do dia de hoje.
Caminho em um perfeito pôr do sol, o céu está o mais belo possível, lembro-me com clareza de um antigo romance, de uma tarde como esta, o que marcou eternamente em meus pensamentos, pois sempre verei o que estou vendo, que em seus trejeitos movimentar os lábios, enquanto os observo dizer em um sorriso: “Céu de baunilha, esse tom de cor nas nuvens, lembrou do filme que assistimos e comentei sobre esse efeito, o Vanilla Sky?”. Bom, pra esse tipo de pensamento não há técnica da mente que amenize.
Lembro-me novamente sobre o assunto da manhã, e desobediente, decido que é melhor ter que pensar tudo que tenho que pensar a respeito, para que eu fique livre de vez desse pensamento, e em meu ser, levanto questões, onde a principal de todas é: O e-mail que recebi do meu médico poderia ser o que? Ele falou palavras como piloto científico, mas não compreendo seus termos técnicos, na verdade ele usa muito esses termos, me acostumar com isso é difícil, mas possível.
Enquanto peço algo pra beber, sou recebido por um sorriso tendencioso, como quem sabe onde quer chegar, a princípio achei que ele não teria me visto, distraído bem mais que o seu normal em ajustar aqueles malditos óculos em sua habitual penumbra, imaginando que aquele gesto estaria me rotulando, me avaliando, decidindo qual estereótipo de suas ciências em que me condeno, por minhas próprias palavras, qual penitência ele prescreverá.
Percebo que uma nova pergunta me surge em pensamentos: Por que mandar e-mail sugerindo coisas estranhas e marcar pra explicar melhor em um quiosque de praça? Não teria o reconhecido fora de seu castelo, o que ele tem a me explicar melhor neste lugar? Quando finalmente me faço essa pergunta, sem nenhum aviso ele sai de seu momento estranho, ao que mais me pareceu um ritual, e escuto palavras e expressões inéditas em minha vida. Seus lábios tentavam explicar pausadamente o que eu já compreendi, agindo como indicado pra agir quando percebesse indícios comportamentais do meu transtorno do déficit de atenção: “Sorria, sintetize uma ingenuidade genuína, logo, se socializará com excelência!”.
Eu estou feliz, eu estou livre, ganhei o direito de nascer de novo!

segunda-feira, 10 de março de 2014

Falando em astronomia...

"O nono planeta tem sua órbita errante, porém bela. Uma órbita tão bela também permite compreender os motivos que levaram a abandonar seu ninho celestial, o doce conforto harmonioso administrado por seu antigo astro, projetando para fora de seu controle com sua própria falha de matemática de sustentação, traído pelas leis físicas.
O planeta errante agora graceja e encanta, tentando se encantar, sistemas solares e todos os comportamentos de seus astros possíveis, sutilmente sendo captado por sua órbita. Mas haviam inconsistências, sempre haviam. O astro nunca é sozinho em seu reino. Sua tentativa em se sustentar era constantemente perturbada por outros planetas que outrora acolheram as leis equacionarias desse astro e lá permaneceram.
É o corpo celeste mais lindo já observado, extremamente rico de um tipo de vida ainda incompreendido. Gentilmente a procura de um lar, a procura da matemática perfeita dominada com um punho firme apoiado no tecido espaço-tempo, um astro soberano em seu trono de leis físicas, e nobre em aceitar uma complexidade de características e o ver como extremamente belo como realmente parece ser." 

domingo, 9 de março de 2014

Algo sobre uma alma pseudointelectual

- Sutilmente o tecido dos meus pés tocam o solo, como quem sai de uma nuvem de devaneios, inebriado pelo doce prazer do que é puro em um ser. Imerso se sentia um anjo, um defensor de uma causa celestial, um quase profeta de todos os dogmas teológicos. Suas palavras se transformavam em som pela vibração de cordas vocais, talvez possuídas por uma razão superior, e todas as mentes ali tocadas, nenhuma poderia assumir suas dissertações como falácias, pois o destinatário era sempre a alma.
O solo ao qual toca é por característica amaldiçoada, sua essência é puramente caótica, alimentada impiedosamente por anos de intensos momentos dramáticos, solo este é visivelmente dilacerado, cortado a esmo, cada ferida com seu interior ainda mais venenoso, o simples toque o transforma de novo, o traz de volta, e você o conhece.
O nome do antigo anjo pode ser muitos, seu signo pode ser qualquer um, utiliza das malícias até de seu signo ascendente carnal, e sua opinião sobre ele provavelmente é: não passa de um maldito hipócrita.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Depoimento do esquizofrênico: romancista - Arquivo #59910152

0001 Narração informal do paciente:
Roberto é um escritor conhecido no mundo, tem seus romances entre os best sellers, curiosamente em todos os seus livros havia um personagem que geralmente passava despercebido algum dos tipos variados de desvio de personalidade, alguns com um toque mais sutil, outros impactando aos exageros uma personalidade carregada de transtorno. Bom... este renomado intelectual está sentado ao meu divã enquanto aguarda alguns minutos conforme lhe solicitei. E possivelmente se trata de um caso crônico de esquizofrenia. O que ele narrou enquanto contava algo que lhe lembrará de um comportamento excêntrico, seja ele qual for. Segue gravação em anexo. 

        0002 Anexo de voz transcrita
"Era um inverno frio, o que me resta de memoria é extremamente pouco, pois estou a 4 invernos frios superando o que irei contar, foi um momento diferente, foi quando percebi que eu precisava de algum tipo de acompanhamento psicológico. Como sempre, mais um fim de relacionamento, mas esse era diferente, era eu vendo tudo de forma tão sublime, enquanto eu atravessava o inferno, notei que podia ver entre o fogo, entre a maldade, entre centenas de outras almas ardendo ao meu redor, eu já avia passado por tudo isso antes, e na primeira passada, meu primeiro ímpeto foi me precipitar a algum tipo de ajuda, achando que poderia haver alguém ali por mim... como um amigo, como algum apoio, esperei até mesmo pelo próprio Deus. O que aprendi é que sempre quando se precisa atravessar o inferno, se você se manter em pé, você chega do outro lado, pode ser tomado por algum anel de pecado, ser queimado por centenas de anos, mas se continuar de pé e andando, mesmo que lentamente, você consegue. Pois lhe digo, a 4 invernos eu passei pelo inferno pela última vez, e foi interessante. Em outros fins, eu explorava a dor alheia, tentava me entender como alguém que sofria um fim, sabia que poderia ser somente o orgulho ferido, ou um sentimento de posse se dilacerando. Mas na última vez não, eu tive o controle do fim, e foi genial. Não me lembro em detalhes, mas em  

    

sábado, 22 de junho de 2013

Em processo de adaptação pra insanidade

Em um mundo que criei, onde o não e o bem não se definem, posso dizer que faço meus planos sem calcular seus pesos, sem saber que tipo de impacto causarei...

segunda-feira, 1 de outubro de 2012



#primeiro depoimento de um esquizofrênico de outubro de 2012.

Era madrugada, senti o tempo fechando lá fora, ouço o vento ganhando força, sinto-o atravessando a madeira velha da estrutura deste quarto. Por falar nisso, não reconheço este quarto. Começo a sentir o bom cheiro da terra se umidificando antes mesmo de sentir a chuva tocar sutilmente o telhado. Ao ritmo do tempo me desprendo de pensamentos, acompanhando a evolução do som da chuva, até que não penso em mais nada, fecho os olhos e o sentimento do som invade por completo todos os meus sentidos. 
Como que abruptamente interrompido por algo, a chuva sede. Os pensamentos me consomem novamente. Passo a mão sobre o rosto de barba áspera, não conseguia me lembrar da última vez que a havia feito.
Meu corpo esparramado sobre uma cama de lençóis dobrados ao extremo da desordem parece rejeitar a realidade, parecia habitado de pouca vida, parecia guardado em qualquer recipiente a meses. Me movimentei, mas logo paralisei, ao me acostumar com a luz que vinha do banheiro de porta aberta observei que meu corpo estava todo rabiscado, escrito de coisas, de números, de fórmulas. Passo a mão sobre minha pele tentando limpar. Minha visão periférica capta algo ainda mais ilógico: rostos, fotografias, recortes de coisas. A parede estava repleta de tudo isso, cada uma com marcações ligando outras imagens, outros textos. Meu Deus...
Me levando, inevitavelmente emito um gemido. Meu corpo formiga pelo fluxo de sangue. Meus músculos parecem inapropriados ao meu corpo.
O que estive fazendo por tanto tempo? A razão me traiu, era a explicação mais lógica. Talvez a razão havia deixado de existir. Talvez eu a libertei. Mas agora terei o controle novamente, acho.
Preciso saber do meu médico, preciso sair daqui, preciso analisar as prescrições dos medicamentos...
Arnaldo Junior

sábado, 28 de janeiro de 2012


Na penumbra do meu consultório, observo a sombra de uma cadeira ao chão, usando da claridade do sol refletida da lua, que depois de percorrer um caminho espacial tão peculiar, distante e perigoso, veio acabar logo aqui, na madeira velha e surrada de onde eu piso. Inclino um pouco o meu rosto, me viro na poltrona, cruzando uma perna sobre a outra, apoiando meu cotovelo sobre o braço encourado. Com as mãos apoio meus dedos ao queixo, pensando em como é incrível minha habilidade em ver os últimos três meses como se fossem alguns anos. Esqueço um pouco disso, levanto-me, aos arrastos, e percebo que meu corpo já não descansa há dias. Já de pé, dou um passo e instantaneamente sou invadido por uma luz avermelhada, apoio-me com os braços ao canto da parede, aperto forte os olhos e abro-os novamente, tudo está como deveria estar, o embaçado habitual que refugia os meus sentimentos.   
Arnaldo Junior.

sábado, 26 de novembro de 2011

3h da madrugada, a cama parece se incomodar com meu toque, abro os olhos, e a escuridão, que deveria ser silenciosa e calma, parece habitar um caos, onde tudo parece querer explodir. Sinto meu corpo enrijecer, e automaticamente muda tudo, a atmosfera fica mais densa, o caos se transforma em um quase inferno, o negro do ambiente se avermelha, meu corpo esquenta, minha pele reage aos meus pensamentos, sou um animal selvagem, acordando de um sono cruel e enlouquecedor. Já sentado à beira da cama, apoio minhas mãos no colchão, inclino meu rosto, fitando onde seria o chão. Minhas mãos apertam onde tocam, sinto os músculos dos meus braços gritarem.
Levanto-me lentamente, apalpo as paredes, encontro a luz, aperto os olhos acostumando-me à luz. Sobre a pequena mesa de quarto, em algum lugar, há o meu remédio.  
Arnaldo Jr.

domingo, 13 de novembro de 2011


- (1) - Levanto-me, e arrastando os sapatos ao solo em madeira velha, me posiciono em frente ao fogão bem velho, vermelho batom com um preto bem preto. Um fogão que lembra 1945, não sei o porquê. Ascendo um fósforo já de madeira amarelada, e observo o fogo consumir a ponta avermelhada combustiva, acompanhando a evolução do fogo por causa da química, e o contato quase amistoso com a base emadeirada. Com a minha respiração, percebo o fogo dançar suavemente, uma comunicação insana entre minha existência, e o queimar do oxigênio, a quase insignificante existência de uma chama. Aperto bem os olhos, percebendo que os meus olhos encontraram enorme dificuldade em se abrir de novo. Não consigo me lembrar de quantos dias não durmo, sinto um sono, mas parece existir bem sutil ali próximo aos outros sentimentos, pensamentos, razões ou insanidades. Percebo o fogo já esquentando a ponta dos meus dedos, balanço a mão e jogo o palito já apagado em direção aleatória. Abandono o que quer que esteja tentando fazer e volto à sala, tenho cliente daqui a pouco e preciso já estar ambientado aos processos de praxe, eu sou o psiquiatra, não o louco.
- (2) – Hoje é sexta, é a noite da semana. Ando a passos suaves observando a brisa balançar a folhagem de plantas colocadas nas calçadas, um velho jornal faz barulho, e antes que eu tente encontra-lo, o sinto agarrando uma de minhas pernas, e ali fica por alguns segundos até o vendo o arrancar de vez e o levar até onde eu o perca de vista. Respiro fundo, já parado, e olho do outro lado da rua, não há casas, há uma praça, ou talvez um campo, talvez os limites da cidade, venho aqui todas as sextas, e a impressão que tenho é de que tudo sempre é diferente, sexta por sexta. Vou me virando sem pressa, já estou na porta do meu antigo amigo, sei que ele já me aguarda, é o dia de poder falar de minhas incoerências.
         Entro como sempre entrei, dou uma batida de leve com um dos dedos na porta, e entro silenciosamente. A sala, muito escura, sempre me surpreende por ser exatamente assim, exatamente como estava. Aceno pro anfitrião, e na penumbra, vejo sua silhueta fazer um sutil sinal de cumprimento com uma das mãos sobre a perna dobrada uma sobre a outra, com o outro braço apoiado em sua poltrona. Evito continuar olhando e, como em um velho ritual tão conhecido por ambos, me sento no divã, viro meu corpo, e vou deixando meu corpo sentir o couro cansado e de cheiro único. Sinto o barulho do material do divã ir se acostumando com minha pele, com meu peso, e vou fechando os meus olhos, deixando minha respiração ir se acalmando. Já calmo, abro os olhos, lentamente. E observando novamente a silhueta, percebo o brilho da armação dos óculos influenciada por alguma fresta de luz que invade a sala, estrategicamente ali, atingindo seu rosto. Ele se acomoda na poltrona, mudando a posição das mãos, unindo as duas em seu colo, entrelaçando os dedos, é o sinal pra que eu diga tudo que me vier. Que eu fale de meus pensamentos.
Arnaldo Junior

Depoimento de um esquizofrênico: Auto-penitências

Há meses preso nesse ciclo, talvez não merecia tanta confiança dada pelo meu especialista... não consigo lidar com a pressão dessa vida, co...