sábado, 28 de janeiro de 2012


Na penumbra do meu consultório, observo a sombra de uma cadeira ao chão, usando da claridade do sol refletida da lua, que depois de percorrer um caminho espacial tão peculiar, distante e perigoso, veio acabar logo aqui, na madeira velha e surrada de onde eu piso. Inclino um pouco o meu rosto, me viro na poltrona, cruzando uma perna sobre a outra, apoiando meu cotovelo sobre o braço encourado. Com as mãos apoio meus dedos ao queixo, pensando em como é incrível minha habilidade em ver os últimos três meses como se fossem alguns anos. Esqueço um pouco disso, levanto-me, aos arrastos, e percebo que meu corpo já não descansa há dias. Já de pé, dou um passo e instantaneamente sou invadido por uma luz avermelhada, apoio-me com os braços ao canto da parede, aperto forte os olhos e abro-os novamente, tudo está como deveria estar, o embaçado habitual que refugia os meus sentimentos.   
Arnaldo Junior.

sábado, 26 de novembro de 2011

3h da madrugada, a cama parece se incomodar com meu toque, abro os olhos, e a escuridão, que deveria ser silenciosa e calma, parece habitar um caos, onde tudo parece querer explodir. Sinto meu corpo enrijecer, e automaticamente muda tudo, a atmosfera fica mais densa, o caos se transforma em um quase inferno, o negro do ambiente se avermelha, meu corpo esquenta, minha pele reage aos meus pensamentos, sou um animal selvagem, acordando de um sono cruel e enlouquecedor. Já sentado à beira da cama, apoio minhas mãos no colchão, inclino meu rosto, fitando onde seria o chão. Minhas mãos apertam onde tocam, sinto os músculos dos meus braços gritarem.
Levanto-me lentamente, apalpo as paredes, encontro a luz, aperto os olhos acostumando-me à luz. Sobre a pequena mesa de quarto, em algum lugar, há o meu remédio.  
Arnaldo Jr.

domingo, 13 de novembro de 2011


- (1) - Levanto-me, e arrastando os sapatos ao solo em madeira velha, me posiciono em frente ao fogão bem velho, vermelho batom com um preto bem preto. Um fogão que lembra 1945, não sei o porquê. Ascendo um fósforo já de madeira amarelada, e observo o fogo consumir a ponta avermelhada combustiva, acompanhando a evolução do fogo por causa da química, e o contato quase amistoso com a base emadeirada. Com a minha respiração, percebo o fogo dançar suavemente, uma comunicação insana entre minha existência, e o queimar do oxigênio, a quase insignificante existência de uma chama. Aperto bem os olhos, percebendo que os meus olhos encontraram enorme dificuldade em se abrir de novo. Não consigo me lembrar de quantos dias não durmo, sinto um sono, mas parece existir bem sutil ali próximo aos outros sentimentos, pensamentos, razões ou insanidades. Percebo o fogo já esquentando a ponta dos meus dedos, balanço a mão e jogo o palito já apagado em direção aleatória. Abandono o que quer que esteja tentando fazer e volto à sala, tenho cliente daqui a pouco e preciso já estar ambientado aos processos de praxe, eu sou o psiquiatra, não o louco.
- (2) – Hoje é sexta, é a noite da semana. Ando a passos suaves observando a brisa balançar a folhagem de plantas colocadas nas calçadas, um velho jornal faz barulho, e antes que eu tente encontra-lo, o sinto agarrando uma de minhas pernas, e ali fica por alguns segundos até o vendo o arrancar de vez e o levar até onde eu o perca de vista. Respiro fundo, já parado, e olho do outro lado da rua, não há casas, há uma praça, ou talvez um campo, talvez os limites da cidade, venho aqui todas as sextas, e a impressão que tenho é de que tudo sempre é diferente, sexta por sexta. Vou me virando sem pressa, já estou na porta do meu antigo amigo, sei que ele já me aguarda, é o dia de poder falar de minhas incoerências.
         Entro como sempre entrei, dou uma batida de leve com um dos dedos na porta, e entro silenciosamente. A sala, muito escura, sempre me surpreende por ser exatamente assim, exatamente como estava. Aceno pro anfitrião, e na penumbra, vejo sua silhueta fazer um sutil sinal de cumprimento com uma das mãos sobre a perna dobrada uma sobre a outra, com o outro braço apoiado em sua poltrona. Evito continuar olhando e, como em um velho ritual tão conhecido por ambos, me sento no divã, viro meu corpo, e vou deixando meu corpo sentir o couro cansado e de cheiro único. Sinto o barulho do material do divã ir se acostumando com minha pele, com meu peso, e vou fechando os meus olhos, deixando minha respiração ir se acalmando. Já calmo, abro os olhos, lentamente. E observando novamente a silhueta, percebo o brilho da armação dos óculos influenciada por alguma fresta de luz que invade a sala, estrategicamente ali, atingindo seu rosto. Ele se acomoda na poltrona, mudando a posição das mãos, unindo as duas em seu colo, entrelaçando os dedos, é o sinal pra que eu diga tudo que me vier. Que eu fale de meus pensamentos.
Arnaldo Junior

domingo, 7 de agosto de 2011

Permita-se

O amor, que sorrateiramente me tirou de uma orbita que cuidava de mim. Me levou pra lugares diferentes, me deu tudo que eu precisava, transformou todos os meus sentimentos, exigiu tudo pra si. Exigiu toda a atenção. O amor, que inevitavelmente fere. Ele existe como que em superfície da pele, mas vai se aprofundando, com calma, com carinho. Ele não vai ficar ali sempre. Imagine-se, com algo em sua pele, você sabia que era temporário, não faria diferença ficar por ali alguns minutos, mas você foi deixando, foi deixando. Passou alguns dias. A sensação é boa não é? Você olha admirado aquilo em sua pele, parece cuidar tão bem de você, parece que te da tudo que você precisa, lembra como é bom? Mas aquilo não irá ficar sempre contigo, precisará ser de outra pessoa, precisará dar essas sensações pra alguém muito longe de você. Lembra que você deixou que aprofundasse à sua pele, a sensação disso saindo não é tão boa. Você ficará em carne viva, irá sentir dor, irá ver a dor. Um ódio engraçado se instalará em seu rosto, alternando com expressões de insegurança, de solidão. E o sofrimento pela dor irá durar junto com tudo isso, ela irá acontecer. O amor que todos dizem, existe. Mas você irá senti-lo, irá desacreditar em tudo que eu disse. Mas quanto melhor te fizer esse amor, mas tende a ser retirado de você. Exatamente como eu disse. O amor poderia ser classificado como grandes estrelas vermelhas, onde quanto maior, menor será seu curso de vida, explodindo em uma supernova.
Escolher ter medo de tudo isso é pior ainda, é aceitar-se como fraco. O segredo da felicidade é poder se deliciar de todas essas coisas. Poder ter esse sentimento sobre sua alma, deixar que ela se aprofunde, que cuide de você. Ninguém espera que isso realmente acabe, é normal esperar pelo ‘para sempre’. É normal dizer o tempo todo que tudo isso é melhor que tudo que você já viveu. Realmente é melhor, você amadureceu depois de ter sofrido com o amor anterior. E vê nesse novo amor coisas diferentes, você está completamente apaixonado por algo novo e mais completo. Essa felicidade que você vive é melhor que todas que já viveu, é a felicidade que hoje você vive, ela existe em você. É normal ver esse amor te deixar, é normal você mesmo ter que arrancar com suas unhas tudo isso sobre sua superfície. Muito normal sentir suspiros, nós na garganta. Engolir um choro tão sentimental e diferente de todos os outros. É normal. É disso que se chama viver, viver é amar. É poder amar várias vezes, aprender com carinho que o amor é sempre eterno, que ele durará dentro de você. Guardado com o melhor do seu carinho. Apenas permita-se viver, delicie-se do amor, intensamente.  
Arnaldo Junior.

sábado, 30 de julho de 2011

Depoimento de um esquizofrênico - 'Falando das Flores'

Sim, o amor. Tão cheio de formas. Tem suas próprias manias, e sempre suas próprias definições. Achava que o amor que sentíamos era como as definições que ouvimos quando criança. Achava que o amor podia ser classificado. Mas quando você sente de verdade o amor percebe que ele não é o que dizem. Percebe que ele pode te ferir também. O ódio por outro lado pode te dar prazer, te faz rir, te diverte. Quem ama também pode ser feliz.
Não posso falar do amor, posso falar do que sinto. O amor é único, pertence a quem sente, em sua única forma. Te dando únicas sensações, pensamentos.
O amor que sinto, sim, eu amo, amo muito, e o tempo todo. O amor que sinto me rouba todos os outros pensamentos, ele é exuberante, excêntrico. O amor que sinto não se parece comigo, com nenhum outro sentimento. Ele é independente. Lembra, de quando se aprende que o amor cuida, de que o amor acalma sua alma, faz você transpirar deliciosamente uma paz incalculável? O amor pode ferir, ele pode te ferir.
Quero falar de todos os amores eternos que jurei, falar de todos os 'para sempre' que saíram dos meus lábios, de quando prometi que amarei pra sempre, todos os beijos sinceros, com o sabor da emoção, com o calor. Eu nunca menti, nunca menti sobre nada disso. Ainda amo cada fragmento da minha vida, amo todos os erros que cometi. Amo todos os acertos. Amo todas as mulheres que jurei amar. Amo todos os meus inimigos à sua forma. Sou completamente apaixonado, meu coração só sabe amar, ele precisa amar. Nunca deixarei de amar, mesmo assim, de longe.
Lembra, de quando te passei insegurança, de quando exalava autoconfiança? Nada disso é verdade, não sou nada disso, sou quem ama. Lembra, de quando errei, não fui ingênuo. Quero que seja livre, quero que todos os amores que vivo apreciem de todas as delicias do universo. Não sou suficientemente bom, pra nenhuma mulher, pra nenhuma amizade. Não desejo intimamente ser único. Todo esse desejo que corrompe a maioria dos meus pensamentos é cheio de vaidade, sentimentos externos.
Hoje amo para sempre, um amor que guardo. Exclusivo e intenso, um amor diferente de todos os outros, onde todos os outros são diferentes um do outro. Hoje amo com toda a força dos meus sentimentos. Hoje vivo um amor sem definição, que não se parece com o amor que dizem. É muito melhor, mais bonito. E é um amor só meu, sinto aqui, comigo, e sentirei pra sempre.
Arnaldo Júnior

domingo, 20 de março de 2011

Depoimento de um esquizofrênico

Eram quase vinte e três horas, observava o fogo da lareira com calma, enquanto limitava meus pensamentos no que se podia ter de mais vago possível. Escuto a maçaneta da porta se movimentar de leve, eu ainda não a tranquei, e aguardo atento meu visitante noturno.
Era ele. Entrou desajeitado, como quem sabe que está fazendo algo errado, mas uma força maior o leva a cometer tal crime. Da penumbra fiz sinal para que se sentasse, ele silenciosamente obedeceu. Se recostou no divã, aparentemente familiarizado. Imaginei ter visto um leve sorriso em seu rosto, não tenho certeza. Deixo dissipar o cansaço sobre meus ombros, ou me movimento como quem o faz. Guardo as mãos sobre meu colo, como um sinal sutil para que prossiga. Aguardo alguns longos minutos, no silêncio da sala, o que se faz ouvir é a sua respiração, e conforme se prolongam os segundos, mais intenso os escuto, sua voz rouca começa a falar, no início, em um tom alterado, elevado, e conforme falava, sua fala se acalmava.
“Sei que não é o momento, mas precisava deste momento... Andei pensando, via com calma as expressões de casa pensamento. Escutei com paciência o sussurrar de todas as ideias, e sei que posso dizer com total convicção: Descobri por onde corre meus ódios e amores.
Enquanto via um ciúme de algo que não é meu correr macio e soberano sobre todos os meus sentimentos, observava que aquilo tudo gerava um outro sentimento, tão intenso quanto o ciúme, o sentimento da indiferença, sei que é complicado tratar isso como sentimento. Mas era o que eu sentia, e tal sentimento evoluía e se espalhava, contaminando tudo que ocupava meu coração, cada partícula dele. Sei que o amor vive em mim de forma extremamente intensa, sei que o ódio vive dessas mesmas regalias. Mas a indiferença? Logo ela? Tão cheia de manias perturbadoras, conseguira também participar também desta condição.
Quero poder dizer sobre meu sentimento em Tantanos, recentemente o tive. Desejei não a mim. Mas sobre qualquer matéria, sobre qualquer ideia. Sobre um pensamento corrompido, sou cheio deles, e os desejei sacrificados. Mas não seria o suficiente, queria poder dizer abertamente. Poder lhe fazer ouvir da minha boca que, seja quem eu for, você o desconhece. Acredito que para se entender alguém, é preciso o conhecer também. Não sou conhecido verdadeiramente por ninguém, nem pelo que digo, ou pelo que faço. Minhas palavras são marionetes de minhas intenções. Não partem do meu íntimo, não se da como voz dos meus sentimentos.
O ódio sorri pra mim, me diz que devo continuar assim, sozinho. Abraço meu ego como quem abraça um urso de pelúcia que o guarda desde a infância. Mas o que ele é pra mim, senão um urso da minha infância? Sempre cuidou dos meus desejos, me abriu o mundo! Me mostrou o quão diferente sou disso tudo, e o quão posso desbravar, me deliciar, viver da graça de todos os pecados. Mantendo intacto e inacessível meu particular e fantástico mundo.
Quando digo ódio, poderia eu estar dizendo sobre qualquer outro sentimento, mas quero o chamar de ódio. Onde moro, o nome do que sinto é esse mesmo.”
Me assusto com o barulho do couro gasto do divã sendo amassado, o som irrompe meus pensamentos e o corpo agora renovado enérgico surge em pé no centro da sala. Ele parecia estar de pé enquanto o som do divã causado pelo brusco movimento do levantar ainda ecoava nos cantinhos escuros desta sala. Ele me observa satisfeito. Seu olhar ainda está lá, diante de mim, mas sua existência já se deixou partir...
Arnaldo Junior

Depoimento de um quase psicopata

Acontece de perder o controle em alguns momentos dessa personalidade superficial, onde quem entra em cena é um animal extremamente selvagem, apático e de muita maldade. Em configuração de fala bem simples, digo que o que sinto é uma vontade verdadeira de carnificina, de assassinato. Visualizo mentalmente, com facilidade, o estripar de fibras musculares, a expressão alheia de dor, gritos que acariciam minha alma.
Não existe poema nesse mundo que digo. O que digo é o puro inferno, uma realidade comum à psicopatia, como diriam especialistas.
Reprimo com força qualquer desejo que seja, mas não consigo reprimir os pensamentos, eles correm soltos, livres, entorpecendo todos os outros.
A vontade que sinto é pelo amor, por carinho. Creio que esses fragmentos psicóticos sejam tentativas de dizer que antes havia um vazio, onde  era amor, hoje se vê o ódio e todas as suas delicias...
Arnaldo Junior

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Sentado novamente no divã, tentando me ajustar ao estofado desgastado, percebo que isso aqui já não faz tanto sentido pra mim, ainda não entendo por quais razões venho, mas se vim, contarei o que quer que me venha aos pensamentos:
‘Chovia, encosto o rosto no vidro do ônibus, e sinto o gelo da atmosfera externa àquilo me inebriar de pensamentos infantis. O que vejo são silhuetas de vegetações do cerrado, suas curvas parecem criar formatos que imaginávamos nos contos, quando pequenininhos nos perdíamos em criações de pensamentos ao ouvir. Sou invadido pela maior de todas as nostalgias, vinda com bilhões de outros sentimentos, ativando instintivamente reações diversas no meu corpo. Mordo os lábios de leve, como quem se concentra em qualquer coisa importante, na tentativa de cuidar de minhas expressões. Me lembro de todas as mentiras que venho ouvindo, falando, vivendo. Me lembro de todos os pecados que venho cometendo. Abandonei a felicidade ingênua da inocência pra me deliciar de prazeres nem tão prazerosos assim. Me perdi na metade do caminho, criei critérios de felicidade que nunca existiram. Destruí universos complexos pra me apaixonar por rascunhos, esboços de tudo que se tem relação com vaidades. Onde antes era um amor à ciência do carinho, do comprometimento com um sorriso sincero, de um abraço sem malícia. Me perdi.’
Arnaldo Junior


Depoimento de um esquizofrênico: Auto-penitências

Há meses preso nesse ciclo, talvez não merecia tanta confiança dada pelo meu especialista... não consigo lidar com a pressão dessa vida, co...